Cientistas concluíram que analgésicos de uso comum em humanos conseguem modificar de forma marcada a resposta do lagostim-da-Noruega a um estímulo aversivo.
Num conjunto de testes, a administração prévia de um fármaco analgésico a lagostins Nephrops norvegicus antes de estes receberem um choque elétrico ligeiro diminuiu a frequência de “abanões” da cauda - um comportamento de fuga - observado nestes crustáceos.
O resultado provém de um estudo cuidadoso e metodologicamente rigoroso e acrescenta mais uma evidência relevante à ideia de que crustáceos como as lagostas apresentam nociceção - a deteção física de dano e um dos critérios usados para definir dor em animais.
Dor vs. nociceção em crustáceos: o que é possível demonstrar?
"Já existe evidência de que crustáceos decápodes apresentam sinais de desconforto e stress quando são expostos a lesões, como a remoção forçada de uma pinça", afirma a zoofisiologista Lynne Sneddon, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia.
"Os nossos mais recentes ensaios mostram que os lagostins-da-Noruega reagem negativamente a choques elétricos, que são dolorosos para os humanos."
Em muitas culturas, lagostas e outros crustáceos são vistos como uma iguaria, e a suposição de que estes animais não seriam capazes de sentir dor poderá ter contribuído para práticas de preparação como fervê-los vivos.
Em várias partes do mundo, esta prática já foi proibida por constituir crueldade contra animais, e o governo do Reino Unido reconheceu oficialmente lagostas, polvos e caranguejos como seres sencientes.
Ainda assim, demonstrar se um animal consegue sentir dor ou experienciar nociceção - sobretudo no caso de um crustáceo - continua a ser difícil.
Na prática, é quase impossível determinar se um animal sente dor, porque não conseguimos comunicar com ele de forma suficientemente significativa para apurar se a sua resposta ao dano inclui uma componente emocional.
Isto ajuda a explicar por que razão a Associação Internacional para o Estudo da Dor atualizou recentemente a sua definição de dor, descrevendo-a como uma "experiência sensorial e emocional desagradável associada a, ou semelhante à associada a, dano tecidular real ou potencial".
Com a nociceção, a questão é diferente: trata-se do "processo neural de codificação de estímulos nocivos". Ou seja, o sistema nervoso deteta um estímulo com potencial para causar dano e envia essa informação ao sistema nervoso central para que o organismo reaja - quer se trate de um cão a ganir ou de um caracol a retrair-se.
Choques elétricos e comportamento de fuga no lagostim-da-Noruega
De acordo com o novo estudo, os choques elétricos - que têm sido propostos como método “humano” para matar lagostas antes de as cozinhar - parecem desencadear nos animais uma resposta de fuga intensa.
Para testar isto, os investigadores mantiveram lagostins-da-Noruega em tanques sob condições controladas e aplicaram na água uma corrente fraca durante cerca de 10 segundos.
Além disso, alguns lagostins foram apenas manuseados sem serem sujeitos a choques: eram apanhados e transferidos de um tanque para outro, uma situação stressante, mas não lesiva. Este grupo “sham” (simulado) funcionou como controlo, permitindo mostrar que a reação ao choque era realmente uma resposta ao estímulo e não apenas o comportamento típico de um animal sob stress.
Antes de entrarem no tanque com choque ou de serem manuseados, a determinados grupos foram administrados analgésicos. Alguns receberam injeções de aspirina e outros foram colocados em água onde se tinha dissolvido lidocaína.
Os animais foram filmados antes e depois do protocolo experimental para avaliar o seu comportamento. Os investigadores recolheram também pequenas amostras de hemolinfa - o equivalente ao sangue nos lagostins - para medir substâncias químicas associadas ao stress e, mais tarde, após os animais terem sido eutanasiados, analisaram a atividade genética em tecido do sistema nervoso.
Efeito dos analgésicos: menos “abanões” de cauda e sinais fisiológicos de stress
Quase todos os lagostins expostos ao tanque com choque responderam com movimentos rápidos de cauda, tentando escapar. Contudo, quando tinham recebido analgésicos previamente, esse comportamento de fuga diminuía ou, em alguns casos, desaparecia por completo.
Também as alterações observadas na química da hemolinfa e na atividade genética dos lagostins sujeitos a choque indicaram uma resposta de stress mais elevada - reforçando que o efeito é real e que estes animais apresentam uma reação fisiológica a estímulos nocivos.
"O facto de analgésicos desenvolvidos para humanos também funcionarem nos lagostins-da-Noruega mostra o quão semelhantes são os nossos funcionamentos", diz Sneddon.
"É por isso que é importante preocuparmo-nos com a forma como tratamos e matamos crustáceos, tal como fazemos com galinhas e vacas."
Segundo os investigadores, estes resultados indicam que é necessário aprofundar o trabalho para reduzir sofrimento potencial em animais que, historicamente, têm sido utilizados por humanos com pouca atenção ao bem-estar, tanto na cozinha como em contextos laboratoriais.
"Ao demonstrar tanto o potencial de nociceção causada por choque elétrico como os efeitos mitigadores dos analgésicos", escrevem os investigadores, "este estudo fornece uma base para melhorar as normas de bem-estar de decápodes na investigação, na aquacultura e nas pescas."
As conclusões foram publicadas na revista Scientific Reports.
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