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Adeus baunilha: Laurent Mariotte reinventa o pudim de ovos com um ingrediente clássico do norte de França.

Mãos a preparar creme brûlée com caramelo, com utensílios e ingredientes numa bancada de madeira iluminada.

Forno morno, janelas embaciadas, um tabuleiro de ramequins a tremer de leve no banho-maria: o conforto clássico encontra um toque inesperado.

O cozinheiro francês de televisão Laurent Mariotte voltou a pegar num dos mais antigos doces de família, o creme de ovos, e fez uma troca silenciosa mas decisiva: tirou de cena as duas estrelas habituais, a baunilha e o caramelo. Em vez disso, entra um ingrediente muito do norte de França, capaz de mudar por completo o perfil de sabor sem transformar a receita num desafio complicado de chef.

De sobremesa da cantina a conforto adulto: creme de ovos com chicória

O creme de ovos, ou crème aux œufs, é o mais básico possível: leite, ovos, açúcar e cozedura lenta. Para muitos franceses, está ligado às refeições da escola ou aos almoços de domingo em casa dos avós. É familiar, macio e, quase sempre, pouco surpreendente.

Mariotte aproveita essa nostalgia, mas muda-lhe o sotaque. Nada de vagens de baunilha. Nada de cobertura de caramelo queimado. A receita continua extremamente simples e amiga da carteira, só que o sabor fica mais fundo, ligeiramente torrado e bem mais aromático.

"Mesma textura, o mesmo conforto, mas um sabor que passa de docemente insosso para suavemente tostado e quase a café."

O segredo está em trocar a baunilha por um produto emblemático do norte de França: a chicória, feita a partir de raízes torradas, moídas e usadas de forma semelhante ao café.

Chicória, a estrela sem cafeína do Norte

A chicória está há muito ligada ao pequeno-almoço no norte de França e na Bélgica. Antes de as máquinas de expresso entrarem em todas as cozinhas, muitas famílias bebiam chicória quente com leite, sobretudo quando o café era caro demais.

Vem da raiz da planta de chicória, que é lavada, seca, torrada e moída. Nas lojas, encontra-se em grãos ou em pó solúvel, que se dissolve em líquido quente.

"A chicória sabe a ligeiramente amargo, tostado e a fruto seco, um pouco como um café suave misturado com caramelo, mas sem qualquer cafeína."

Na versão de Mariotte para o creme de ovos, a chicória ocupa o lugar que normalmente pertence à baunilha. Em vez de uma nota floral e doce, traz um sabor mais adulto, que continua a casar muito bem com leite e açúcar.

Porque resulta tão bem num creme

  • O leite absorve os aromas tostados durante uma infusão suave.
  • Os ovos e o açúcar amaciam a ligeira amargura da chicória.
  • O creme final fica algures entre uma sobremesa de café e um creme de caramelo.
  • Sem cafeína, pode servir-se à noite sem receio de insónia.

Creme de ovos com chicória de Laurent Mariotte: ingredientes e método base

A receita segue a filosofia “despensa e frigorífico”: nada de sofisticado, nada difícil de encontrar. Para seis pessoas, precisa de:

  • 500 ml de leite gordo
  • 6 ovos
  • 75 g de açúcar de cana claro
  • 2 c. de sopa de chicória em grãos, ou 1 c. de sopa de chicória solúvel

Os passos são os do creme tradicional, com apenas um gesto extra: fazer infusão da chicória em leite morno.

Passo a passo: do tacho aos ramequins

Começa-se por aquecer o leite com a chicória. Mantém-se a mistura mesmo abaixo do ponto de ebulição e deixa-se em infusão durante cerca de 30 minutos. Este tempo de contacto, lento, permite que os sabores tostados se desenvolvam sem ficarem agressivos ou queimados.

Depois da infusão, coa-se o leite para retirar os grãos, caso os esteja a usar. Numa taça à parte, batem-se os ovos com o açúcar até ficarem ligeiramente espumosos. Em seguida, verte-se o leite morno com chicória aos poucos, sempre a bater, para não talhar os ovos.

"Este simples passo de infusão transforma um leite banal numa base intensamente saborosa, sem xaropes, aromas artificiais ou caramelo extra."

Divide-se a mistura por chávenas ou taças pequenas. Colocam-se dentro de um tabuleiro de forno maior, que se enche com água quente para formar um banho-maria. Cobre-se o tabuleiro com papel vegetal ou folha de alumínio e leva-se ao forno a baixa temperatura, cerca de 125°C com ventilação, por aproximadamente 45 a 50 minutos.

Cozedura perfeita: ligeiro abanar, zero bolhas

O creme de ovos não perdoa temperaturas altas. Se o forno estiver demasiado quente, os ovos coagulam, talham e libertam água. O resultado deixa de ser um creme liso e passa a ser uma sobremesa granulosa e esponjosa.

O método de cozedura suave de Mariotte mantém a textura sedosa. A regra é observar, não espetar: o centro de cada creme deve continuar a tremer ligeiramente quando se mexe no tabuleiro, enquanto as bordas ficam firmes e definidas.

Bolhas à superfície indicam que o creme ferveu ou passou do ponto. Cobrir o tabuleiro e usar um banho-maria com água quente (não a ferver) ajuda a baixar esse risco. Depois de assados, os ramequins arrefecem até à temperatura ambiente e seguem para o frigorífico até ficarem totalmente frios.

Como servir à moda do norte

Os cremes frios combinam muito bem com bolachas típicas do norte de França e da Bélgica. Em vez de uma camada de caramelo, ganha-se crocância ao lado.

Acompanhamento Efeito no sabor
Migalhas de speculoos As especiarias e as notas de caramelo fazem eco da chicória
Bolacha amanteigada com vergeoise O açúcar castanho macio reforça os aromas tostados
Bolacha simples de manteiga Crocância neutra, deixa o creme brilhar

Uma colher de chantilly ou um fio de natas frias pode suavizar o perfil, caso esteja a servir pessoas mais sensíveis à amargura.

Para quem cozinha em casa: substituições, ajustes e planeamento

A chicória ainda não é presença garantida em todas as cozinhas, mas substitutos de café e “cafés” de cereais costumam aparecer na mesma secção do supermercado. Esses produtos, desde que sejam à base de chicória, podem ser usados de forma semelhante.

Se preferir sabores mais intensos, opte pela versão em grãos e prolongue a infusão por mais 10 minutos. Para um resultado mais leve, fique pela chicória solúvel e, na primeira vez, use um pouco menos do que uma colher de sopa.

"Esta sobremesa pode ser preparada no dia anterior, o que a torna uma opção tranquila e sem stress para um jantar de inverno."

Guarde os ramequins no frigorífico, tapados, e junte as migalhas ou as bolachas apenas no momento de servir, para não perderem a crocância.

Chicória, amargor e crianças: o que esperar

Muitas crianças associam sobremesa a doçura pura, por isso a nota tostada pode apanhá-las de surpresa. Uma solução prática é fazer metade da dose com chicória e a outra metade com um sabor mais familiar, como baunilha ou um toque de cacau. A base é a mesma, mudam apenas as infusões.

Para quem gosta de sobremesas de café, como tiramisù ou gelado de café, este creme com chicória soa a conhecido, apenas mais suave. A grande diferença é a ausência de cafeína, o que reduz o risco de noites agitadas depois de uma segunda dose generosa.

Para lá do creme: outras formas simples de usar chicória em casa

Depois de abrir um frasco de chicória, não tem de o deixar esquecido ao fundo do armário. Uma pequena colher pode substituir parte do café no creme de tiramisù, acrescentando profundidade sem elevar demasiado a cafeína.

Misturada em leite quente com um pouco de açúcar, transforma-se numa bebida reconfortante, com sabor a um café com leite mais leve. Na pastelaria, uma pitada de chicória solúvel na massa de brownies ou de bolo de chocolate dá complexidade, tal como faz o café instantâneo, mas novamente sem efeito estimulante.

Para quem evita cafeína ao final do dia ou durante a gravidez, este tipo de ingrediente permite manter os sabores tostados normalmente associados ao café, ficando do lado seguro. Com bases simples como creme de ovos, arroz doce ou papa de sêmola, a chicória é uma forma discreta de refrescar sobremesas antigas sem lhes alterar o espírito.

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