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Café e chá podem ajudar a proteger o cérebro da demência a longo prazo.

Mulher sénior a beber chá enquanto lê um livro numa cozinha iluminada e acolhedora.

Em cafés apinhados, em canecas térmicas no escritório ou em casa, logo ao início do dia, duas bebidas discretas partilham o mesmo protagonismo.

Por trás da primeira chávena de café ou chá da manhã, começa a ganhar forma um debate científico ligado a uma preocupação cada vez mais comum: como chegar à velhice com a mente em boa forma. Estudos recentes indicam que estes hábitos tão enraizados podem ter um impacto no cérebro bem para lá de “afastar o sono”.

O que a ciência começa a encontrar na chávena de café e chá

Em grandes estudos populacionais nos Estados Unidos, investigadores seguiram mais de 130 mil pessoas durante cerca de 40 anos. Nessas análises, quem bebia café ou chá com regularidade apresentou, ao longo da vida, um risco mais baixo de desenvolver demência quando comparado com quem quase não consumia estas bebidas.

Os valores impressionam: o padrão de duas a três chávenas diárias de café com cafeína, ou uma a duas chávenas de chá, surgiu associado a uma redução de aproximadamente 15% a 20% no risco de demência. Não é um “milagre”, mas é uma diferença consistente quando se analisam dezenas de milhares de percursos de vida.

Pesquisadores observam que doses diárias moderadas de café ou chá se associam a menos casos de demência e a um declínio cognitivo um pouco mais lento.

Ainda assim, este efeito não aumenta indefinidamente. Acima dessas quantidades, os estudos não identificaram um benefício adicional claro. Em outras palavras: aumentar o consumo de café ao longo do dia não parece traduzir-se em protecção extra para o cérebro.

Porque é que a cafeína e outros compostos contam para o cérebro

Café e chá são misturas químicas complexas. Em cada chávena existem centenas de substâncias - e não apenas cafeína. Entre elas, destacam-se os polifenóis, compostos com acção antioxidante e anti-inflamatória.

O envelhecimento cerebral é influenciado por processos como o stress oxidativo. Neles, moléculas instáveis vão danificando gradualmente as células nervosas, afectando ligações, memória e rapidez de raciocínio. Algumas substâncias presentes em bebidas cafeinadas parecem contribuir para reduzir esse desgaste.

  • Cafeína: modula receptores de adenosina, influenciando vigília, atenção e o fluxo sanguíneo cerebral;
  • Polifenóis: ajudam a neutralizar radicais livres e a reduzir inflamações crónicas;
  • Outros compostos: podem interferir no metabolismo das gorduras, no açúcar no sangue e na saúde vascular.

Ao nível celular, os investigadores descrevem uma espécie de “resposta adaptativa”: pequenas doses regulares destes compostos funcionariam como um estímulo ligeiro que leva o organismo a reforçar mecanismos de protecção. E isto não se aplica apenas ao cérebro - fígado e pâncreas também parecem beneficiar.

Quando o metabolismo das gorduras melhora e as células beta do pâncreas ficam mais preservadas, o risco de desenvolver diabetes tipo 2 diminui. Este pormenor é relevante porque a diabetes está entre os factores que aumentam a probabilidade de demência. Assim, parte da possível protecção associada ao café e ao chá pode ocorrer de forma indirecta, através da melhoria da saúde metabólica.

A proteção cognitiva sugerida pelos dados parece surgir de pequenos efeitos somados ao longo de décadas, não de mudanças bruscas após algumas semanas.

Café comum, café descafeinado e chá: não são equivalentes

Um detalhe interessante destes estudos é que o café descafeinado não mostrou a mesma associação com menor risco de demência. Isto levanta a hipótese de que a própria cafeína, ou substâncias que se mantêm apenas no processo de torrefacção e preparação do café habitual, tenham um papel específico.

Bebida Padrão ligado a menor risco Observação
Café com cafeína 2 a 3 chávenas/dia Associação com 15%–20% menos casos de demência
Chá (preto ou verde) 1 a 2 chávenas/dia Associação semelhante, com efeito estável em quantidades moderadas
Café descafeinado Sem padrão protetor claro Não apresentou relação consistente com menor risco

Apesar disso, tentar apontar um único “responsável” pela protecção seria uma simplificação. O padrão alimentar global, a forma de preparação, a qualidade do grão ou da folha e até a hora a que se consome a bebida podem influenciar os resultados.

Observação não é prova: os limites destes dados

Os trabalhos referidos baseiam-se em grandes bases de dados observacionais. Na prática, isto significa acompanhar pessoas ao longo do tempo, registar hábitos e observar quem desenvolve (ou não) demência.

Este tipo de estudo permite detectar associações, mas não confirma que uma coisa cause a outra. Quem consome café e chá com frequência tende, em média, a ter outras características: maior escolaridade, rendimento mais elevado, melhor acesso a cuidados de saúde e mais actividade física. Cada um destes factores, por si só, já contribui para proteger o cérebro.

Os próprios pesquisadores alertam: os achados não justificam indicar café ou chá como tratamento ou “vacina” contra a demência.

Para demonstrar uma relação de causa-efeito, seriam necessários ensaios clínicos controlados, com grupos distribuídos aleatoriamente para consumir mais ou menos café ou chá durante décadas. Estudos assim, além de dispendiosos e difíceis, esbarram em questões éticas e práticas, tornando improvável a sua realização em larga escala.

Outros factores pesam muito mais na saúde cognitiva

Mesmo que café e chá possam acrescentar algum benefício, o envelhecimento do cérebro é moldado sobretudo por outros elementos. Especialistas estimam que cerca de metade dos casos de demência poderia ser adiada actuando sobre factores modificáveis.

Hábitos que influenciam o risco de demência

  • controlo da hipertensão;
  • deixar de fumar;
  • redução da obesidade, sobretudo na meia-idade;
  • prática regular de actividade física;
  • alimentação equilibrada, com menos ultraprocessados;
  • tratamento adequado da diabetes e do colesterol elevado;
  • estímulo cognitivo e vida social activa.

O sono surge como peça-chave. Análises de grandes coortes internacionais mostraram que dormir quatro horas ou menos, ou dez horas ou mais, está associado a um declínio cognitivo mais rápido do que dormir cerca de sete horas por noite.

Aqui pode existir uma contradição: a mesma cafeína que poderá trazer vantagens em doses baixas pode tornar-se prejudicial quando se prolonga pela noite e rouba horas de descanso. Se a pessoa exagera no café e passa a dormir pior, o efeito final no cérebro pode tornar-se desfavorável.

Como integrar café e chá numa rotina mais protectora

Para quem aprecia café ou chá, os dados actuais apontam para um equilíbrio: consumo diário, em quantidades moderadas, dentro de um estilo de vida já orientado para a saúde. Em vez de procurar protecção numa única chávena, faz mais sentido pensar na combinação de vários factores.

Alguns cuidados práticos ajudam a beneficiar de possíveis efeitos positivos sem desequilibrar o resto:

  • evitar grandes doses de cafeína depois de meio da tarde, sobretudo se o sono é leve;
  • não trocar água por café ou chá ao longo de todo o dia, para reduzir o risco de desidratação;
  • diminuir o açúcar e os cremes muito gordos nas bebidas;
  • observar a resposta do corpo: palpitações, ansiedade ou insónia são sinais de excesso.

Quem tem hipertensão não controlada, arritmias cardíacas ou ansiedade intensa deve falar com um profissional de saúde antes de aumentar o consumo. Alguns medicamentos também podem interagir com a cafeína. Esta precaução é particularmente importante em pessoas idosas e em quem tem várias doenças crónicas.

Termos que pedem esclarecimento

Dois conceitos surgem frequentemente na investigação sobre café, chá e demência. Conhecer o essencial ajuda a interpretar futuras manchetes.

Demência: não é uma única doença, mas um conjunto de síndromes que envolve perda progressiva de memória, linguagem, raciocínio e autonomia. O tipo mais conhecido é a doença de Alzheimer, mas existem outros, como a demência vascular, associada a problemas de circulação no cérebro.

Declínio cognitivo: refere-se à diminuição gradual de funções como atenção, velocidade de pensamento e memória, mesmo sem um diagnóstico formal de demência. Pequenas alterações podem começar muitos anos antes de um quadro mais grave, por isso os estudos procuram factores que possam atrasar essa trajectória.

Cenários possíveis para quem já passou dos 50: café, chá e risco de demência

Imagine duas pessoas com 55 anos, peso semelhante e o mesmo nível de escolaridade. Uma bebe duas chávenas de café de manhã, caminha três vezes por semana, dorme perto de sete horas e mantém a pressão arterial controlada. A outra, que quase não consome café ou chá, é totalmente sedentária, dorme mal e fuma.

Com base no que se conhece hoje, a diferença de risco de demência entre as duas será explicada sobretudo pelos factores clássicos: tabagismo, sedentarismo, sono deficiente e hipertensão. O café, por si só, não “salva” ninguém; mas, integrado num conjunto de hábitos saudáveis, pode acrescentar algum benefício.

Para quem não tolera cafeína, continua a fazer sentido apostar numa alimentação rica em polifenóis - como frutos vermelhos, azeite, nozes e verduras - que actuam em vias semelhantes às exploradas pelo café e pelo chá. A ideia que emerge da investigação é menos sobre uma bebida específica e mais sobre o efeito cumulativo de pequenos hábitos diários na protecção do cérebro ao longo dos anos.

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